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quinta-feira, 19 de março de 2015

PAI, Quero que Saibas....

É o teu rosto que encontro.
Contra nós, cresce a manhã, o dia, cresce uma luz fina.
Sim, quero que saibas,
não te posso esconder,
ainda há uma luz fina sobre tudo isto.
Tudo se resume a esta luz fina
a recordar-me todo o silêncio desse silêncio que calaste.
Pai, quero que saibas,
cresce uma luz fina sobre mim
que sou sombra, luz fina a recortar-te de mim,
ténue sombra apenas.
Não te posso esconder,
depois de ti, ainda há tudo isto,
toda esta sombra e o silêncio e a luz fina que agora és.

                        José Luís Peixoto, in "Morreste-me"



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Outonal...



 Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

"Quem tem alma não tem calma"

(Imagem retirada da Net)
Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que eu sou e vejo.
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu"?
Deus sabe, porque o escreveu.

Este é um dos muitos e belos poemas de Pessoa de que gosto imenso  e que me toca profundamente. Especialmente em determinados dias... Hoje é um desses dias.
Tal como o poeta, também me releio  e... me questiono : Fui/sou eu??
- Sou, com certeza!
Então, resta-me acreditar que  só "Deus sabe, porque o escreveu."

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Evocando Sophia de Mello Breyner Andressen, 10 anos após a sua morte...



Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
                        [em que não moras]
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'
Tema(s): Ausência 

 "A melhor homenagem que se pode fazer à escrita de Sophia, dez anos após a sua morte, é reconhecer que ela continua deslumbrantemente actual". (Miguel Sousa Tavares)

sábado, 10 de maio de 2014

Um mosquito intruso...

... acaba de invadir o meu espaço.

Para descontrair e... porque gosto de Drummond de Andrade, decidi reler este seu poema (alusivo ao mosquito), tomando previamente uma atitude que em nada, ou em muito, corresponde à do poeta: matei o mosquito!!  

Poema Erótico de Drummond de Andrade


Satânico é meu pensamento a teu respeito,
e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão,
numa sede de vingança incontestável pelo  que me fizeste ontem.

A noite era quente e calma e eu estava em minha cama,
quando, sorrateiramente, te aproximaste.
Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu,
sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença,
aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.
Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.

Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis
do  que entre nós ocorreu durante a noite.

Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar.
Quando chegares, quero te agarrar com avidez e  força.
Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos.
Só descansarei quando vir sair o sangue quente do teu corpo.

Só assim, livrar-me-ei de ti... Filho da P---!

sexta-feira, 21 de março de 2014

Para assinalar o Dia Mundial da Poesia...


O Amor

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela, 
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..
 

Fernando Pessoa

sábado, 1 de fevereiro de 2014

PROMESSAS!...

Relembro o meu conterrâneo António Aleixo, nascido em Vila Real de Santo António, no mês de fevereiro de 1899  e falecido em novembro do ano de
1949, em Loulé (terra de seu pai), onde há muitos anos residia.
Foi, muito justamente, considerado a nível mundial um dos ícones da poesia popular portuguesa.

Estas quadras foram por ele escritas  em 1945, em tempo de promessas eleitorais...  
Promessas, promessas... que  morrem sempre à nascença independentemente da "cor política" de quem promete...      
PORQUÊ???? - Pergunto eu!......

foto noticia

Ao sentir tremer o trono,
P'ra o mundo não fez segredo:
Prometeu, talvez por medo,
Que dava o seu a seu dono...

Este sujeito é capaz
De nos fazer mil promessas...
Mas faz-nos tudo às avessas
Das promessas que nos faz!

Mas eu não sou quem procuras...
Sei, contra tua vontade,
Que me mentes, quando juras
Que me dizes a verdade.

Prometem ao Zé Povinho
Liberdade, Lar e Pão...
Como se o mundo inteirinho
Não soubesse o que eles são!


Fonte: "Inéditos" António Aleixo
Edição de Vitalino Martins Aleixo (filho do poeta)
Loulé 1978

domingo, 26 de janeiro de 2014

SÓ PODE...

SER AVÓ

Ser avó é sentir felicidade
                  É conhecer um amor doce, profundo,
         É viver de carinho e ansiedade.
             É resumir nos netos o seu mundo!

       Ser avó é voltar a ser criança,
         E fazer tudo pelo neto amado...
        É povoar a vida de esperança,
            É reviver todinho o seu passado.

              Ser mãe, é dar o coração, eu creio,
                    Mas ser avó... que sonho abençoado...
              É viver de ilusão, num doce enleio,
                    E viver no neto o amor ao filho amado!
                                                                                                       (autor desconhecido)

Encontrei algures, por aí, e achei delicioso. Muito simples, mas incrivelmente  verdadeiro e profundo!...
Por vezes, entregue aos meus pensamentos e às agruras do dia a dia - o ano de 2014 não me está a decorrer como seria de desejar - pergunto-me como consegui viver tantos anos sem aqueles dois seres maravilhosos, que, felizmente, são os meus netos. E como me sentiria tão mais triste se -  como eloquentemente diz o poema -  eles não estivessem aí para me povoarem a vida de esperança.
Como mulher de fé, sinto-me triplamente abençoada, dado que Deus quis premiar a família com mais um mano - que vem a caminho -  para o Vicente e para António.  
Bem sei que a conjuntura atual não é favorável, que não é fácil criar três crianças, mas com esforço e muito amor tudo se consegue. E Deus vai ajudar!! Só pode...

domingo, 8 de dezembro de 2013

Fases que vão e que vêm, no calendário da vida...



Lua Adversa
  
Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles, in 'Vaga Música'

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Este meu mar...


Quantas vezes, ao fim do dia, já me sentei junto deste meu mar, contemplando o céu  colorido e salpicado de nuvens, em busca da paz, da tranquilidade, daquela resposta ainda não encontrada?? Muitas... e muitas mais vezes se perspetivam,  porque os bramidos que saem deste oceano de voz rouca, mas doce, parecem sempre sussurrar-me aos ouvidos:
- Fica, deixa-te envolver por esta magia e... trata de ser feliz!!

Oceano Nox         

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

                            Antero de Quental, in "Sonetos"

                                                                                               Foto de Vivaldo Gonçalves
 

 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Saudade!


 
 
Saudade? Sinto de quem partiu para nunca mais voltar. E só quem a sente a conhece verdadeiramente...
 
Temos de partir todos, um dia, eu sei! Mas foi difícil, muito difícil, aceitar a sua partida assim tão repentina, ainda tão novo.  Mais novo do que eu, o que prova que a idade é apenas e só um número. Pela ordem natural dos factos, teria sido eu a partir, ou a nossa mãe... que tão estoicamente sobreviveu a esta tão dura prova. 
 
Quis Deus??, ou a vida, que assim acontecesse, num dia 5 de Agosto, e nós, volvidos 12 anos, continuamos a nossa luta diária com este vazio nos nossos corações.
 
Garanto que se a saudade matasse - não mata mesmo! - eu já teria partido!
 
Descansa em paz, MANO! De ti guardo muitas e gratas lembranças! Obrigada pelo extraordinário ser humano que sempre foste! 
 
Saudade 
 
 O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
Pablo Neruda, in "Crepusculário"

sábado, 3 de agosto de 2013

Ó mar salgado...

 
O mar enrola na areia
Ninguém sabe o que ele diz
Bate na areia desmaia
Porque se sente feliz!
(lembram-se desta cantiga popular?)
Ó mar salgado, quanto do teu sal

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Fernando Pessoa)

terça-feira, 30 de julho de 2013

Quanta ilusão!!...

 
Ilusão Perdida
 
Florida ilusão que em mim deixaste
a lentidão duma inquietude
vibrando em meu sentir tu juntaste
todos os sonhos da minha juventude.

Depois dum amargor tu afastaste-te,
e a princípio não percebi. Tu partiras
tal como chegaste uma tarde
para alentar meu coração mergulhado

na profundidade dum desencanto.
Depois perfumaste-te com meu pranto,
fiz-te doçura do meu coração,

agora tens aridez de nó,
um novo desencanto, árvore nua
que amanhã se tornará germinação.

Pablo Neruda, in 'Cadernos de Temuco'

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Amostra sem valor


 
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
 
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
 
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
           
                                                                             António Gedeão

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Lembro-me...



                                              
O  meu orgulho

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos fez nascer as rosas!
 
As minhas mãos, outrora carinhosas,
Pairavam como pombas... Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

São sempre os que eu recordo que me esquecem...
Mas digo para mim: «Não me merecem...»
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!

(Florbela Espanca)  

quinta-feira, 21 de março de 2013

Assinala -se hoje o Dia Mundial da Poesia...

Quando vier a Primavera
Перекличка двух судеб...

Quando Vier a Primavera
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa



 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A chuva chove...


                  A chuva chove mansamente... como um sono
                  Que tranquilize, pacifique, resserene...
                  A chuva chove mansamente... Que abandono!
                  A chuva é a música de um poema de Verlaine...

                  E vem-me o sonho de uma véspera solene,
                  Em certo paço, já sem data e sem dono...
                  Véspera triste como a noite, que envenene
                  A alma, evocando coisas líricas de outono...

                  ...Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
                  Com muita névoa pelos ombros da montanha...
                  Paço de imensos corredores espectrais,

                 Onde murmuram velhos orgãos, árias mortas,
                 Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
                 Revira in-fólios, cancioneiros e missais...
                        (Cecília Meireles)


Por aqui choveu durante toda a tarde... De mansinho!... O dia  apresentou-se  bastante escuro e melancólico.  Aceitei-o como um convite ao conforto do lar,  onde me mantive refastelada num dos meus sofás, junto à  lareira, evocando a vida - com lirismo -, ao som da chuva e de  música do meu agrado.
Porque estes momentos também são necessários!! Ajudam-nos a encontrar o equilíbrio!  E sendo eu uma pessoa que gosta mais de deambular por aqui e por ali... confesso que esta foi uma tarde muito saborosa!!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Porquê as crianças, Senhor?

Retirei e partilho esta parte do poema  Balada de Neve de Augusto Gil, porque aborda as crianças  - que eu adoro - e que infelizmente fazem parte dum mundo de onde  a violência infantil ainda não foi erradicada...
Sinto o coração apertado quando penso que há meninos maltratados, negligenciados, abandonados, com fome... Temos o dever  de ajudar, até mesmo de denunciar a quem de direito, casos de crianças em sofrimento, situações que  são, atualmente,   muitas vezes camufladas pela pobreza envergonhada, fruto da crise económica por que estamos a passar.
As crianças têm o direito de ser felizes.
Porquê as crianças, Senhor? Porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim?

(...)
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…


E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…


Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…


E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Talvez...

Talvez digas um dia o que queres,
Talvez não queiras afinal dizê-lo,
Talvez passes a mão no meu cabelo,
Talvez eu pense em ti talvez me esperes.

Talvez, sendo isto assim, fosse melhor
Falhar-se o nosso encontro por um triz
Talvez não me apagasses como eu quis,
Talvez não nos soubéssemos de cor.

Mas não sei bem, respostas não mas dês.
Vivo só de murmúrios repetidos,
De enganos de alma e fome dos sentidos,
Talvez seja cruel, talvez, talvez.

Se nada dás, porém nada te dou
Neste vaivém que sempre nos sustenta,
E se a própria saudade nos inventa,
Não sei talvez quem és mas sei quem sou.
                           (Vasco Graça Moura)


Transcrevi e partilho este belo poema de Vasco Graça Moura, que podemos ouvir, cantado, na arrebatadora voz de Carminho, no seu album Alma.