quinta-feira, 19 de março de 2015

PAI, Quero que Saibas....

É o teu rosto que encontro.
Contra nós, cresce a manhã, o dia, cresce uma luz fina.
Sim, quero que saibas,
não te posso esconder,
ainda há uma luz fina sobre tudo isto.
Tudo se resume a esta luz fina
a recordar-me todo o silêncio desse silêncio que calaste.
Pai, quero que saibas,
cresce uma luz fina sobre mim
que sou sombra, luz fina a recortar-te de mim,
ténue sombra apenas.
Não te posso esconder,
depois de ti, ainda há tudo isto,
toda esta sombra e o silêncio e a luz fina que agora és.

                        José Luís Peixoto, in "Morreste-me"