domingo, 24 de março de 2013

"Alta Definição - Verdade do Olhar"


Foi em Fevereiro, talvez em meados de Fevereiro! Entrei numa das lojas da FNAC e comprei este livro da autoria de Daniel Oliveira "Alta Definição - A Verdade do Olhar". 
Li-o num ápice. Diria que me entrosei na leitura desde o primeiro momento. O que nem sempre acontece com os outros livros que leio. Nele são retratadas na 1.ª pessoa  histórias de vidas muito interessantes, algumas mesmo empolgantes. São entrevistas íntimas, conduzidas por Daniel Oliveira, a personalidades relevantes e carismáticas da nossa praça, no fundo pessoas como nós, com problemas idênticos aos nossos, mas com grandes experiências de vida, porventura vivências diferentes das nossas...

Deixo aqui alguns testemunhos que, de certa forma, me deixaram a pensar, pela maneira inteligente como Daniel Oliveira conduziu as entrevistas e a naturalidade/simplicidade/riqueza humana das  respostas dos entrevistados.
Eis  como Miguel Sousa Tavares fala sobre o casamento e a família:
- «(...) é importante não estar sozinho na vida (...), é importante receber e dar na medida do que se recebe, caminhar junto. É importante ter alguém que seja o nosso interlocutor... confidente permanente, que não está só para nos ouvir como está, também, para falar e para que nós o oiçamos.» 
Lida assim com a solidão: 
 - «Eu não sou, de forma alguma, uma pessoa com medo de estar sozinho. Agora acho que, melhor que a solidão, é estar bem acompanhado. Pior que tudo é a solidão acompanhada, é a coisa pior que existe na vida. Conheço tanta gente que vive nisso anos a fio, porque não têm coragem de quebrar (...) não têm a felicidade de estarem acompanhadas nem o grande desafio da solidão (...) estão a perder a vida mesmo».

Helena Sacadura Cabral, que muito admiro, quando D.O. se refere à sua espontânea gargalhada  diz:
- «...Eu sou uma pessoa bem disposta, acho que a vida é uma dádiva e, portanto, é aproveitar enquanto a temos».
À pergunta "O que é que uma mulher deve ser?", HSC responde objetivamente:
- «Exatamente o mesmo q um homem., com a diferença q não pensa, não atua, nem reage da mesma forma. (...) Não quero ser distinguida, nem beneficiada, nem maltratada pelo meu género, quero ter iguais oportunidades (...) de resto, não quero ser igual aos homens, adoro ser mulher. (...) Acho prazeiroso ter um filho na barriga nove meses. É tão bonito! (...) É uma altura de bem estar, de bem.fazer.»

Margarida Carpinteiro, à pergunta de D.O. "A Margarida diz que aqueles que sofrem estão à margem da sociedade. Essa margem é cada vez mais distante da vida quotidiana?", responde:
- « (...) Antigamente ouvia dizer assim: Ai, uma pessoa vai a Nova Yorque, cai uma pessoa no chão, nem se preocupam! Nós aqui estamos quase lá. Os velhos que estão há nove anos mortos em casa não é o que me mais me  preocupa, porque isso pode acontecer. Preocupa-me é quando eles estão vivos... Não estou a perceber muito bem porque é que estão tão preocupados em prolongar a vida aos velhos, se depois não lhes ligam nenhuma. Isto é político. O que é que querem fazer conosco? O que é isto? Pensem. Ou então deixem-nos morrer. Não prolonguem se não têm capacidade para  dar uma pensão de reforma decente... se não têm capacidade para lhes dar o mínimo de alegria, o mínimo de vigilância à sua saúde mental, física, de higiene, de tudo, deixem as pessoas em paz.»

O conhecido ator Rogério Samora, quando abordado por Daniel Oliveira relativamente à sua avó, por quem foi criado, diz:
- «Ficaram muitos conselhos... Eu acho que a educação que a minha avó me deu foi essencial para a minha formação. Dizer "obrigado",... abrir a porta a uma senhora, dar o lugar a uma grávida, gratificar um motorista de táxi, dizer "faz favor", "bom dia". "boa tarde", boa noite"... Regras básicas de educação, não é? Acho eu!» 
Sobre a morte prematura da mãe e da avó:
- «Acho que não as amei suficientemente em vida. (...) Porque eu percebi que, depois de a minha mãe ter morrido e da minha avó ter morrido,  não as amei suficientemente em vida, que andei demasiado preocupado comigo, que fui egoísta, que pensei demasiado em mim. Entendes? Ambas morreram antes do prazo, antes do tempo, antes do dia. E quando morreram eu percebi :"Oh, deviam ter estado mais tempo. Agora  que eu ia começar a dar-lhes beijinhos, agora que eu ia começar a amá-las foram-se embora.»

Quando Daniel Oliveira confronta Ana Zanatti com uma das suas frases:  "A Ana diz que o medo é destruidor do progresso", comenta: 
- «O medo impede-nos de fazer aquilo que há de mais importante, que é a nossa verdade, de sermos verdadeiros, de sermos sinceros e, muitas vezes, não somos capazes de ser porque temos medo do julgamento dos outros, ou porque temos medo que nos retirem o poder... daqui ou dali. O medo leva-nos a destruir os outros, leva-nos à destruição, muitas vezes, leva-nos à violência, leva-nos à guerra. O medo não está de mãos dadas com o progresso, não está de mãos dadas com o avanço.»

Por fim, DO passou de entrevistador a entrevistado. Coube a Clara de Sousa vestir a roupagem de entrevistadora. Quando o confrontou com o que é público relativamente à sua infância,e lhe perguntou: "Como é que uma criança sobrevive ao facto de perder os pais para a droga?",DO respondeu: 
- « O facto de de ser muito bem acompanhado pelos avós, pelas tias, pela prima. E pelo facto de os próprios pais serem um exemplo, ainda que por motivos não benignos, do que não fazer. Eu tinha mais perto do que qualquer outro miúdo o caminho pelo qual eu não devia seguir, e isso fez-me não ter qualquer tipo de curiosidade em relação a esse mundo, e também porque os conselhos dos meus pais, apesar dos apesares, foram sempre muito conscientes, ainda que muitas vezes os atos não tivessem adesão com as palavras, eles foram sempre muito conscientes nos avisos e na precaução que me incutiram em relação àquele mundo. Eu não cresci com  nenhum outro termo de comparação. Aquela era a minha vida, portanto era com aquela vida que eu tinha de crescer. »
CS: - Neste momento, Daniel, estás preocupado com o futuro? Isto, sem , obviamente, conotações político-partidárias, mas de que forma é que essa preocupação ocupa a tua vida?
- «Ocupa, porque eu acho que nós ainda não tivemos a perceção geral do que aí vem. Acho que as prioridades estão deturpadas. A prioridade máxima tem de ser, para mim, a saúde das pessoas e a sua condição básica e digna de vida. Não estou a falar deste governo, ou do anterior, ou do que quer que seja, não está a ser acautelado, as pessoas são um número sempre. Se há vinte pessoas em lista de espera no hospital para ter uma operação, são vinte pessoas, é uma coisa vaga, não são a Maria, o Daniel, a Clara, não são as histórias de vida dessas pessoas, isso está esquecido, e a prioridade máxima devia ser as pessoas. Não vejo que o país tenha solução se a consciência não mudar sobre o que deve ser feito.»

Também acredito que sim, que as consciências têm de mudar, caso contrário este país não mais sairá do marasmo em que se encontra.
"Alta Definição - Verdade do Olhar" - um livro de leitura fácil, sentidas histórias de vida... Espero que estes excertos vos despertem o interesse, que o leiam e que se divirtam... Eu li, devorei... e gostei!